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amor geladoPassei a infância vendo na minibiblioteca do meu pai um livro, que hoje tem quase vinte anos desde o seu lançamento, cujo título é: “Amar pode dar certo”. Apesar de ser um nato leitor, confesso que ainda não o li, não por falta de vontade ou falta de tempo. Talvez falta de interesse ou falta de amor. E hoje, depois da separação dos meus pais, quando vejo o livro na estante menos ainda tenho vontade de lê-lo. Talvez um dia eu leia…

Como cristão, até seria estranho desacreditarmos do amor.

Não falo do amor eros: aquele amor das paixões carnais; e não só nisso, mas dos indivíduos que fazem as coisas, tomam decisões e agem cegamente por estarem profundamente apaixonados e inseridos nesse amor. Também não me refiro ao amor fraternal: aquele da filantropia, das amizades que rumam a um relacionamento mais sério, dos pais e dos filhos; tão nobre, tão puro, tão necessário, tão eficaz, tão “porto seguro”. Menos ainda me refiro ao mais difícil de definir e peculiar em seu embasamento, que é o amor philia: que não tem sinônimo de filiação, mas define-se por aquelas amizades boas e duradouras, que se baseia na concordância de ambas as partes de que entre eles é amizade, e somente amizade.

Falo da caridade: o amor segundo o coração de Deus. Ao compreender em seu sentido original menciona-se o termo grego ágape; pois não se trata da “caridade” como conhecemos hoje que é mera ajuda ou obras ativistas de amor ao próximo, é mais que isso. É doar-se ao próximo, dar tudo de si – tudo mesmo – sem esperar nada em troca, é amar sob qualquer circunstância sejam elas favoráveis ou não, é suportar tudo, é não querer nada para si e principalmente amar mesmo quando não é correspondido; e mais, ficar feliz até quando o alvo a ser amado está amando outrem, e, por fim, é chegar ao ponto de dar a vida por quem não mereceria.
Jesus Cristo, a dois mil anos escreveu que o amor se esfriaria ao passo que o fim se aproximaria – até aí tudo bem. Não, não está tudo bem! É o amor ágape que se esfriaria. Ou seja, o amor que te faz uma pessoa menos egoísta, o amor que vale a pena lutar, o amor que não desiste e espera qualquer tempo e qualquer coisa, que passa por todas as dificuldades, que não cobiça e não ostenta nada para si que não chama atenção para seus atos; esse amor realmente está frio nessa geração. Pois é só prestar atenção e ver o quão difícil tornou-se amar nesses dias.
Amar pode dar certo? Pode! Mas exigirá uma energia quase que, se não somente que Divina para isso.

Alguém falou com sabedoria:

Hoje em dia amar é fácil, difícil é se relacionar!

Quer uma prova do quanto não amamos caridosamente (lembrando que é caridade no seu sentido de ágape)? Citarei três exemplos, baseado nos respectivos amores, para explicar a atual frieza do amor ágape:

A começar pela escolha de nossos parceiros, com base no amor eros:
Franca e honestamente queremos a pessoa mais bonita, não por que meramente amamos quem nos atrai, mas por que queremos exibi-las e mostrar para o mundo que nós somos capazes de estar com aquela pessoa. Isso é demonstração clarividente de egoísmo; pois em nosso íntimo todos nós já tivemos, uma queda que for, por alguém que comumente poucas pessoas iriam querer pela sua aparência física. Gostaria de estar errado, mas grande parte das vezes amamos as pessoas lindas por conveniência. E por falar em eros, nós cegamente fazemos as maiores loucuras de amor por aquela pessoa que mais nos atrai fisicamente, do que para aquelas que talvez não seria tão concorrida, e pior que isso é que deixamos de amar algumas pessoas por elas não corresponderem ao padrão de beleza que procuramos.
Partindo do pressuposto que amar exige-se esforço, preferimos não nos comprometer com as pessoas e com o próprio amor, por isso que preferimos basear nosso amor em philia:
O grande motivo pelo qual não amamos (ágape) é a nossa insegurança e a preferência de estar na zona de conforto. Na verdade queremos amar fraternalmente; ou seja, queremos conhecer alguém para desenvolver um relacionamento, criar planos, ter filhos (ou não), ser um marido ou esposa, etc. mas, por termos medo desse amor fraternal um dia tornar-se ágape, preferimos amar philia, ou seja gostar muito de outrem, para não não termos um compromisso sério que vá gastar grande parte das nossas energias. Preferimos as “amizades coloridas” do que um amor fraternal comprometido e sério. Nós naturalmente não gostamos da ideia que o amor fraterno nos apresenta, pois um dia pode acontecer de termos que exercer o amor ágape e até esse dia chegar nunca nos julgaremos “prontos”. O amor philia faz o amor ter menor responsabilidade e compromisso, dói menos e não faz as pessoas lutarem por um amor que valha a pena.
Já amar fraternalmente tornou-se sinônimo de negociação. “Eu amo, se tu – ou por que tu – também me amas.” “Eu tenho inveja e cuido do que amo.” É um amor de puro interesse seja qual for ele, financeiro ou para manter o de status quo. Amamos por que temos que amar. Esse amor fraterno tornou-se conhecido nessa geração com uma triste realidade: “Na verdade, não amamos verdadeiramente, só não queremos ficar sozinhos!” Dura coisa é saber que isso é um fato de nossos dias. E talvez a decadência das relações fraternais na família, nos casais outrora românticos e apaixonados, nos grupos de ciclos íntimos que as religiões proporcionam, demonstra como somos egoístas, pois chegamos ao ponto de não mais amar (ágape), mas escolhemos quem amar (philia), como amar (philia) e ainda chamamos isso de “tolerância”; sendo que somos os seres mais intolerantes do mundo quando alguém não nos ama da forma que gostaríamos.
Diante de todo esse quadro poderíamos concluir que a solução é o amor ágape.
Mas infelizmente, amar ágape o inimigo quando este lhe faz mal, amar mesmo a não correspondência, amar a pessoa que te corrige – por que te ama – e corrigir outrem por amor ágape, amar o indivíduo que tem coragem de falar a verdade para você, amar quando é afligido por políticas exteriores, amar quando ninguém está amando, amar sem mágoa ou qualquer sentimento ruim interiorizado, amar andando a segunda milha e dando a outra face para bater, amar em silêncio e amar o silêncio, amar sem esperar nada em troca, amar) e continuar amando até o fim… Amar assim, tornou-se algo gélido e raro em nossos dias! Por isso também que até o nosso amor ao próximo, tornou-se ativismo e “obra de caridade”; e também uma espécie de “tolerância burra”, ou seja concordamos para não gerar conflito; pois amamos por conveniência, recheados de egoísmo e autopreservação. Assim, o amor se esfria a ponto de amarmos tanto a nós mesmos que nos tornamos mais amantes de si mesmo e esquecemos de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo, como a nós mesmos.

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