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Venho por meio deste post compartilhar um pergunta que fiz ao site Got Questions:

Pergunta 323942: Em 2 Timóteo 3:16 está dito: “Toda Escritura é inspirada por Deus…” No entanto, o apóstolo Paulo, que escreveu essas palavras, disse que também escreveu idéias pessoais, que podem ser apontadas como sem inspiração Divina (1 Coríntios 7:6, 12, 25, 40; 2 Coríntios 8:10; 11:17). Como explicar isso para alguém que alega como incoerência da palavra?

Respondida por: Prof. Marcos

Resposta:

      Primeiro, vamos examinar cada um dos versículos que você mencionou.  Certamente há outros que provocariam algumas dúvidas, mas acredito que uma explicação desses irá mostrar o caminho para entender todos.  Um princípio básico para entender qualquer texto é considerar o contexto.  Por exemplo, a famosa palavra “manga” em português depende do contexto para ser entendida corretamente.  Do mesmo modo, qualquer palavra pode trazer conotações um pouco diferentes dependendo do seu ambiente.

1 Coríntios 7:

     v.6 (vv.1-7)- “E isto vos digo como concessão [ACF: permissão] e não por mandamento.”  Note em primeiro lugar que o contraste não é entre uma palavra inspirada e outra apenas humana; é entre uma concessão e uma obrigação, algo que se vê tanto nos atos divinos como humanos.  Por exemplo, Deus ordenou a Israel uma série de sacrifícios obrigatórios (Números 28-29), mas Ele convidava os israelitas a oferecerem sacrifícios voluntários (Salmo 50).  Um pai pode deixar seu filho casar com determinada moça, mas ele espera que o jovem assuma as responsabilidades de marido.  Mas o que Paulo está dizendo aqui?  O que está concede ndo?  Ele começa a passagem dizendo que “é bom que o homem não toque em mulher” (v.1), que devemos entender pelo v.7: “Quero que todos os homens sejam tais como também eu sou”, isto é, solteiro (veja vv.25-40).  Porém ele reconhece as pressões deste mundo e que o casamento proporciona um ambiente de lidar com isso (v.2) e então dá algumas diretrizes (vv.3-5).  Mas tudo isso é dentro do contexto do casamento ser uma concessão e não um mandamento.  O que se dedica a Deus como solteiro obviamente vai ignorar as instruções.

     v.12 (vv.10-16)- “Aos mais digo eu, não o Senhor…”.  Neste parágrafo, Paulo se dirige aos que já estão casados.  Primeiro, ele dá o mandamento do Senhor Jesus contra o divórcio (vv.10-11; veja Mateus 5.31-32 e 19.1-9 e o paralelo em Marcos 10.1-12).  Depois ele trata do caso de um crente com cônjuge descrente (vv.12-16).  Neste caso, Paulo não tinha nenhum mandamento de Jesus, e não há nenhum ensino de Jesus sobre este caso nos Evangelhos.  Paulo, então, dá a sua própria instrução.  Mas não devemos pensar que é mera opinião humana.  Em v.25 ele faz a mesma coisa acrescentando que su a opinião é “como tendo recebido do Senhor a misericórdia de ser fiel”.  O mandamento de Jesus é taxativo, mas ao dar o seu parecer, Paulo teve que refletir sobre vários princípios para chegar a uma instrução específica.  Já que ele escrevia sob inspiração, confiamos que Deus o guiou à resposta correta na situação.  Paulo parece ter a mesma confiança, dizendo em v.40: “penso que também eu tenho o Espírito de Deus”.

     v.25 (vv.25-40, veja vv.17-24)- “…não tenho mandamento do Senhor; porém dou minha opinião, como tendo recebido do Senhor a misericórdia de ser fiel.”  Aqui, Paulo está recomendando a vida de solteiro, isto é, alguém que pode se dedicar totalmente ao serviço do Senhor, e isso num ambiente hostil de perseguição (vv.28b-35).  Novamente ele indica a falta de uma palavra definitiva nos ensinos de Cristo.  Ele também reconhece que há um princípio maior, de “permanecer assim como está” em vez de usar a conversão para tentar mudar o estado social (vv.17-24).  A sua recomendação não é obrigatória (v.28).

     v.40 (vv.39-40)- “…segundo a minha opinião; e penso que também eu tenho o Espírito de Deus.”  Aqui Paulo se dirige às viúvas.  Elas podem casar (“mas somente no Senhor”), mas ele recomenda a vida de solteira, dedicando-se ao serviço do Senhor (o assunto de vv.25-40).  Em 1 Timóteo 5.11-15 ele faz outra recomendação: as viúvas jovens devem casar. 

     Qual a diferença entre o mandamento do Senhor e a opinião de Paulo em 1 Coríntios 7?  Ambos são inspirados por Deus e úteis para o ensino, a repreensão, a correção e a educação na justiça.  Ambos conduzem o homem de Deus a ser perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.  A diferença é na aplicação.  Um mandamento não exige tanto esforço intelectual (“falou, ‘tá falado”).  Uma recomendação ou opinião serve de guia, mas é menos taxativo.  O mandamento indica o caminho certo em contraste com o errado, mas a recomendação aponta para o caminho melhor e ntre vários caminhos corretos.

2 Coríntios:

     8.10 (vv.1-12)- “E nisto dou minha opinião….”  O que já falei acerca de 1 Coríntios 7 se aplica aqui.  Paulo está fazendo uma recomendação, apontando o caminho melhor.  Não tem a urgência e obrigatoriedade de, por exemplo, 2 Coríntios 13.5.  Em 2 Coríntios 8-9 ele dá instruções acerca de uma oferta, algo que já é voluntário por natureza.

     11:17 (vv.16-29, veja cps.10-12)- “O que falo, não o falo segundo o Senhor, e sim como por loucura, nesta confiança de gloriar-me.”  Em 2.14 – 6.10 Paulo descreve seu ministério apostólico, dirigindo-se à igreja toda.  Em cps.10-12 ele focaliza mais especificamente os rebeldes em Corinto, defendendo a sua autoridade apostólica em preparação para sua chegada, já que a última visita foi dolorosa (2 Coríntios 12.14; 13.1; 2.1) ao ponto de escrever uma carta dura (2 Coríntios 7.8; 2.4, 9).  Como parte de sua defesa, Paulo apresenta seus credenciais, como se estivesse gabando-se.  Isso não era algo que gostava de fazer, pois normalmente vem do orgulho (veja Prov érbios 27.2; Lucas 18.9-14).  Por isso, então, ele fez essa colocação para deixar claro que não foi vanglória, mas sim, a necessidade de responder as críticas daqueles na igreja que não queriam aceitar a sua autoridade.

     Mesmo que Paulo esteja dando a sua opinião pessoal, ele o faz como servo de Deus e como apóstolo.  O evangelho que pregava veio a ele por revelação da parte de Cristo (Gálatas 1.11-12).  Em 1 Coríntios 7 Paulo está respondendo um pedido de orientação da parte da igreja (“Quanto ao que me escrevestes” v.1) e suas instruções trazem autoridade, mesmo que nem sempre obrigatoriedade.  Em 2 Coríntios ele descreve seu ministério apostólico e defende sua autoridade.  Fato é que as igrejas reconheceram suas palavras como vindas da parte de Deus e por isso estas duas cartas entraram no cânon do Novo Testamento.

     Queremos refletir um pouco sobre o processo de inspiração, mas antes disso é importante se conscientizar de um erro muito comum ao lidar com o relacionamento entre Deus e o homem.  Nós temos a tendência de pensar que Deus e o homem agem separadamente.  Isto é, quando Deus está agindo, o homem está parado, e vice-versa.  É porque nós não enxergamos a mão de Deus nos eventos e além disso, nõs não entendemos plenamente a grandeza de Deus e Sua soberania sobre toda a criação.  Em contraste, podemos observar a nossa atuação, tanto o processo mental como o resultado nas ações.  A Escritura também subentende nossa c apacidade de agir, porque apela constantemente à vontade humana por meio de mandamentos e convites para crer nas promessas de Deus.  Nós não somos animais movidos pelo instinto, nem robôs movidos por configuração e comandos.  Mas pela fé entendemos que tudo está sob o controle do Criador.

     Levando tudo isso em conta, cremos que a inspiração das Escrituras (2 Timóteo 3.14-17; 2 Pedro 1.16-21) é a operação do Espírito Santo de Deus por meio da qual Ele “moveu” os escritores bíblicos no processo da composição das Escrituras, de forma que eles, ainda que agissem espontaneamente e empregassem seus próprios vocábulos e estilos literários, escreveram “da parte de Deus”, com o resultado de que seus escritos são a vera palavra de Deus.  A inspiração garante que aquilo que os autores humanos escreveram é precisamente o que Deus pretendia que escrevessem para a transmissão da verdade divina.

     Há quatro termos importantes com respeito às Escrituras.  A REVELAÇÃO gera a Escritura; a INSPIRAÇÃO conserva a sua autenticidade como palavra de Deus, para que o texto sirva de veículo adequado e autêntico da revelação especial. A INERRÂNCIA deste veículo garante que não engana, nem erra. A PRESERVAÇÃO conserva a sua autenticidade durante todo o processo de transmissão e tradução de modo que nós temos acesso a toda a Escritura original.  A doutrina de REVELAÇÃO ensina que Deus falou, a doutrina de INSPIRAÇÃO indica que a Bíblia é o documento normativo daquela revelação, a doutrina de INERRÂNCIA declara que este documento é completament e confiável, em tudo que tem a dizer, e a doutrina de PRESERVAÇÃO declara que todo o conteúdo do documento ainda existe hoje.  Estas doutrinas nos levam a tratar a Bíblia com a devida seriedade e reverência.

     Estas colocações são simples e bonitas, mas o processo que nos trouxe a Palavra de Deus escrita foi bastante complexa.  Para começar, a doutrina de inspiração afirma que a linguagem imperfeita de homens pecadores era o veículo eficaz da palavra perfeita do Deus santo.  Com certeza, Deus revela o Seu poder por meio da fraqueza humana (2 Coríntios 12.9-10)! 

     O livro dos Salmos mostra a complexidade do processo de inspiração.  Em grande parte era originalmente palavras humanas dirigidas a Deus em oração e louvor.  Não sabemos exatamente como Deus atuou na sua composição, mas reconhecemos a soberania dEle, inclusive nos pensamentos dos salmistas.  Davi, autor da maioria dos salmos, afirmou em 2 Samuel 23.1-2 que era inspirado pelo Espírito de Deus.  Pedro, ao citar e explicar Salmo 16.8-11, chamou Davi de profeta (Atos 2.25-31).  A composição e coleção dos salmos e a organização do livro canônico durou séculos, desde Moisés (Salmo 90) até o exílio babil& ocirc;nico (Salmo 137), do século XV ao século VI a.C.  Podemos perceber uma lógica na sequência dos salmos, organizando-os em grupos que compartilham e desenvolvem temas comuns.  Ou seja, o mesmo Espírito que moveu os poetas também atuou nos editores até chegar à forma final do livro, provavelmente na época de Esdras, nos meados do século V a.C.  O livro como um todo é a palavra de Deus dirigida a seres humanos para nos ensinar como orar e louvar.  O Novo Testamento confirma isso, pois o livro mais citado do Antigo é Salmos (citações explícitas). 

     Diversas partes da Bíblia indicam o uso de fontes.  O Pentateuco contém muitas leis já conhecidas em códigos anteriores.  Reis e Crônicas referem o leitor a várias fontes.  Lucas fez uma investigação extensa ao escrever seu evangelho e o livro de Atos.  Existem outros exemplos, mas isso é suficiente.  Ao usar uma fonte humana, o autor bíblico estava ignorando o Espírito de Deus?  Muito ao contrário, Pedro afirma que foi movido pelo Espírito. 

     Resumindo, então, podemos afirmar que nas suas cartas que fazem parte do Novo Testamento, Paulo escreveu sob inspiração de Deus.  Tudo que escreveu, do jeito que escreveu, foi como Deus quis para transmitir a Sua palavra aos homens.  E esta palavra não voltará vazia!

Grande agradecimento ao site Got Questions sem o qual esse post levaria muito mais tempo para ser elaborado! Espero que sirva como fonte de estudo e conhecimento para todos. 😉

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