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“Então, disse Jesus a Seus discípulos: Se alguém quer vir após Mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-Me. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por Minha causa achá-la-á. Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma? Porque o Filho do Homem há de vir na glória de Seu Pai, com os seus anjos, e, então, retribuirá a cada um conforme as suas obras.”  Mateus 16:24-27

“Estou crucificado com Cristo/ logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim.” Gálatas 2:19-20

Cristão: um perdedor para o mundo

Filho de pais pobres, viveu toda a Sua vida sem possuir bem algum. Nasceu Jesus em Nazaré, um lugar estigmatizado pelo preconceito. Diziam naquele tempo: “Pode vir alguma coisa boa de lá?”[1] Ainda bebê, sua família tornou-se fugitiva, exilados no Egito até a morte de Herodes. Cresceu em estatura e sabedoria. Tornou-se um adulto peregrino, vivendo e pregando no deserto, nas ruas, nos barcos. Não possuía mantos, palácios, banquetes de rei. Antes, dividia com o Seu séquito de miseráveis o pouco alimento que tinha. Curou e ajudou sem distinção de classe, raça ou credo. Por inveja, traíram e condenaram Jesus injustamente. Ofereceu a outra face a quem Lhe batia. A multidão por quem tanto fez preferiu salvar um assassino – Barrabás – a libertar Aquele sobre O qual não pesava dolo algum. Seus discípulos e amigos fugiram, negando-O. Os guardas O torturaram, crucificaram, deram-Lhe vinagre ao invés de água, zombaram do “Rei dos Judeus”. Morreu em grande dor e agonia, na companhia de dois ladrões. Pobre, humilhado, traído, injustiçado, renegado. Quem foi, aos olhos do homem natural, Cristo? Um perdedor. Um louco que acreditava ser Deus e morreu em vão por sua insanidade. Talvez um filósofo, de uma bondade tanto admirável quanto ingênua. Mas para os espirituais, para os detentores da fé, Cristo alcançou a maior vitória que um homem pode ter: venceu a morte. Ele nos resgatou do poder do pecado, dando-nos a Vida Eterna. Jesus nos salvou ainda do nosso maior e mais perigoso inimigo nesta vida: nós mesmos e nossa carne corruptível. 

Escolher ser um cristão, na sociedade em que vivemos, numa Terra que jaz no maligno é, de antemão, optar pela derrota. Seremos odiados e tudo nos farão por causa do Seu nome.[2] Poder, beleza, riqueza… para cada padrão de sucesso deste mundo, para cada prazer equivocado, o cristianismo possui uma resposta contrária. Não eu, mas Cristo seja amado e honrado. “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao Teu nome dá glória!”[3] Se decidirmos seguir verdadeiramente a Jesus, trilhar os Seus passos, atravessar a porta estreita, precisaremos renunciar ao nosso ego e carregar a nossa cruz. Lutar a cada dia contra nossas próprias misérias, contra as tentações deste mundo, buscando sempre uma vida de comunhão com Deus e santidade crescente. Cristo é um parâmetro difícil de ser alcançado, inatingível, mas que até a morte precisa ser o nosso Alvo, nosso paradigma de justiça e amor. Aceitar que pertencer a Ele significa ser pela humanidade desprezado é o primeiro passo para uma vida cristã legítima. Servos de Cristo, mas livres do maligno, que vem para matar, roubar e destruir.[4] Já Cristo vem para nos dar vida em abundância nesta terra, uma vida que não se encerra aqui, mas perdura na Eternidade. A sabedoria de Deus é, de fato, loucura para o mundo.[5] Mas o que nos faz, aparentemente, perdedores, é exatamente O que nos livra do domínio do mal. E como é infinitamente melhor servir ao Senhor do que aos homens. Como é leve o Seu fardo e suave o Seu jugo![6] Cristo verdadeiramente liberta a nossa alma e enche o nosso espírito de paz e alegria sem medidas, uma alegria que independe das circunstâncias. Felicidade e liberdade que só os Seus conhecem. Quando declaramos que somos, perante os valores e princípios terrenos, de antemão perdedores, assinamos a nossa alforria da escravidão do pecado e todas as suas prisões: ambição, inveja, ódio, ganância, individualismo, egoísmo, violência. Especialmente duas das mais terríveis, capazes de secar os nossos ossos e cegar os nossos olhos: a vingança e a vaidade.

 

 Vingança: o secar dos ossos

“Ouviste o que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; e, ao que quer demandar contigo e tirar-lhe a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas. Ouviste o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai Celeste, porque Ele faz nascer o Seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. Por que, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo? Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é O vosso Pai Celeste.”   Mateus 5:38-41,43-48

Cristo, bem como o Apóstolo Paulo – quando evocou a obediência às autoridades humanas, ainda que injustas – são equivocadamente interpretados como passivos e conformistas. Ao contrário, Cristo não foi um pacifista conformado, mas um ativista pacificador. Existem grandes diferenças entre os termos. Cristo lutou por justiça todos os Seus dias aqui nesta terra. Revoltado com os mercadores que comercializavam oferendas dentro do templo, derrubou-lhes as mesas e expulsou-os da Casa de Deus. Enfrentou a lei dos costumes, curando enfermos e colhendo espigas no sábado, abençoando os gentios, conversando com as mulheres, debatendo com os doutores e com os poderosos. Seguindo Seus passos, Paulo renunciou às riquezas e às glórias de ser um cidadão romano para peregrinar construindo tendas, escrevendo cartas nas prisões onde tentaram em vão detê-lo, espalhando a Boa Nova, lutando por aqueles que ele mesmo havia um dia oprimido. O cristianismo, portanto, não prega a alienação e a indiferença, mas o combate vigoroso do mal.

O que quis dizer, então, Jesus, ao nos ensinar a ceder a outra face? Para entender a fundo as Suas palavras, faz-se imprescindível analisar o Seu testemunho como um todo, Seu exemplo de vida. Quando os soldados vieram prendê-Lo no Getsêmani, Pedro desembainhou a espada na tentativa de impedí-los. Disse-lhe Jesus: “Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão. Acaso, pensas que não posso rogar a Meu Pai, e Ele mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos?”[7] E rendeu-se à prisão sem resistência. Levado perante o Sinédrio para ser julgado, guardou silêncio ao ouvir os falsos testemunhos que proferiram contra si. Diante de Pilatos, quando poderia usar a sabedoria do Alto e a verdade para se defender, devolveu a mesma resposta às perguntas: “Tú o dizes.” Com esta atitude resignada, diante de uma injustiça cometida para consigo, Cristo nos ensina uma grande lição: vale a pena lutar por uma justiça maior, pela causa do bem comum, jamais somente em causa própria. Se o dano for a outrem, defendamos o justo com todas as nossas forças, se o dano for a nós mesmos, dependendo do custo de nossas ações, preferível é que assumamos o prejuízo, ainda que indevido. Ele lançou sobre si os nossos pecados, sem ter cometido nenhum deles. Deu a vida por nós, ainda que não mereçamos. O cristão precisa estar disposto a renunciar aos seus próprios direitos em prol da coletividade e do testemunho cristão, a se sacrificar e confiar no Senhor.[8] Mil cairão ao nosso lado, dez mil à nossa direita, mas os de fé não serão abalados. Aos anjos dará ordens a nosso respeito, para que nos guardem em todos os nossos caminhos.[9] A Ele pertence a nossa defesa, fará sobressair a nossa justiça como a luz e o nosso direito como o sol ao meio dia.[10] Muitas são as aflições dos justos, mas de todas O Senhor o livra.[11] De fato, Cristo nos avisa de que no mundo teremos muitas aflições, mas nos conclama a ter paz e bom ânimo, pois Ele mesmo venceu o mundo.[12] Ainda que, por um breve período de tempo, consigam prender o nosso corpo, jamais acorrentarão o nosso espírito. “Bendito O Senhor, que não nos deu por presa aos dentes deles. Salvou-se a nossa alma, como um pássaro do laço dos passarinheiros; quebrou-se o laço, e nós nos vimos livres. O nosso socorro está em o nome do Senhor, criador do céu e da terra.”[13]

Não agiam assim, entretanto, muitos nos tempos bíblicos. Travavam uma luta solitária e equivocada, não alcançando qualquer progresso ou vitória em seus intentos. Rebelavam-se contra seus senhores, cometendo crimes. Provocavam a ira dos imperadores, sonegando-lhes os impostos. Fazendo justiça com as próprias mãos, manchavam a reputação dos crentes. Ainda que corretos muitas vezes em suas queixas, em nada contribuíam, com sua falta de sabedoria, para a melhoria da sociedade em que viviam, para a mudança do status quo. Ao saldarem erro com erro, perdiam a razão. Ao pagarem olho por olho, na verdade praticavam não a justiça, mas a vingança. Este é um aspecto importante da justiça cristã: encontra-se intimamente atrelada à noção de aprendizado, não a de punição. Ainda que venhamos a sofrer as conseqüências naturais de nossos pecados nesta terra, Cristo, ao morrer na cruz, pagou pelas conseqüências espirituais de todos eles, encobriu nossas transgressões. Para Deus, portanto, justiça é perdão e lição, jamais uma penalidade cujo fim é em si mesma. É crescimento para quem tropeça, para que não repita o mesmo equívoco; também o é para quem observa, para que não incorra no mesmo erro. O sofrimento alheio não pode nunca ser motivo do nosso prazer. Salomão nos adverte a não nos regozijarmos quando cair o nosso inimigo, caso contrário seremos nós mesmos motivos de ira.[14] Este prazer da vingança é o que movia a multidão a apedrejar a mulher adúltera. Cristo, contudo, conhecia o seu íntimo, sabia que ela já havia sofrido com a destruição do seu casamento. Havia, provavelmente, extraído a lição necessária para superar e vencer aquele obstáculo. Não satisfeitos, porém, com as decorrências advindas do pecado, os fariseus queriam ampliar-lhe a dor. “Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra.”[15] Um a um foram se retirando, acusados por suas próprias consciências. “Vai e não peques mais.” – encerra Cristo o episódio e o ensinamento.

A vingança, assim como a inveja e a vaidade, seca os ossos, pois nunca está satisfeita. Pode ser associada ao senso egoísta de direito próprio, à teoria do merecimento, ao desamor. Podemos e devemos nos irar com as injustiças deste mundo. “Irai-vos, mas não pequeis”[16]. A própria vida trará aos perversos as suas implicações, ao Senhor pertence a justiça.[17] O rei Davi entendia isto muito bem, ainda que a sua veemência tenha sido equivocadamente compreendida. O seu clamor para que Deus vingasse os inocentes e perseguidos deve ser interpretado muito mais como uma ira diante da aflição dos justos, uma sede de justiça e de testemunho diante dos povos pagãos, do que um desejo objetivo de assistir o sofrimento de seus inimigos. A prova disto está no fato de que o próprio Davi teve a vingança contra Saul diversas vezes em suas mãos e jamais a executou. Não foram poucas as ocasiões em que este rei mau encontrou-se sob a sua espada e Davi preservou-lhe a vida, confiando no caráter e nas promessas de Deus.[18]

Milênios se passaram até os dias de hoje, desenvolvemos um sistema democrático de direito, trabalho e eleição dos nossos governantes, onde a lei ampara as vítimas e defende os justos. Conseqüentemente, afirmam alguns, a vingança como naqueles tempos acabou, olho por olho e dente por dente. Somos mais sofisticados, mais civilizados, não condenamos inocentes, não lançamos espadas no inimigo, não apedrejamos as pessoas… só as executamos na cadeira elétrica, nos porões das ditaduras, nas notícias caluniosas dos jornais, nas guerras, no terrorismo, nas desigualdades sociais, nas prisões desumanas. Impressionante como mudaram os meios, mas pouco se alteraram as intenções. Muitas vezes mergulhamos no auto-engano de afirmar que nossa esperança está somente nEle e que, como Davi, somos misericordiosos quando temos a vingança em nossas mãos. Contudo, a desforra pode tomar formas extremamente sutis. O que vem a ser a maledicência, as recriminações públicas, a propagação de boatos e escândalos, o cultivo de mágoas, os corriqueiros “bem-feito” ou “eu avisei”, os pensamentos orgulhosos, os “tapas com luva de pelica”, o desejo de provar o nosso valor e assertividade aos outros? O que vem a ser tudo isto além de uma forma terrivelmente velada de vingança? As palavras têm poder, falar é agir. E no pensamento há realidade vivida, ainda que secretamente. Fantasias malignas vão minando nossa comunhão com Deus, envenenando a nossa alma até transparecerem em atitudes. A vitória diante de tudo isto, a cura definitiva para todo desejo de vingança encontramos no perdão. Se a vingança parte do pressuposto de que merecemos vencer, o perdão assume que de antemão somos todos perdedores e pecadores, incapazes de atirar uma pedra sequer. Saber reconhecer isto é um dos maiores trunfos a serem conquistados.

Falam os ditados populares a respeito do sabor da vingança, como se este fosse agradável: “a vingança é um prato que se come frio”, “a vingança é doce”, entre outras falácias. “Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo!”[19] Pois nisto reside a realidade: seja quente, seja fria, a vingança é sempre amarga para quem a sofre e mais amarga ainda para quem a executa. É como bebermos um veneno esperando que com isto o outro morra em nosso lugar. Quando nos rendemos a ela, dilatamos o poder e o sucesso do perverso sobre nós. Decaímos ao mesmo patamar dos algozes e prolongamos a nossa própria agonia. A única retaliação aceitável diante de qualquer injustiça, bem como a mais eficaz e nobre delas[20], é perdoar e esquecer quantas vezes forem necessárias, como nos adverte Cristo, como Ele assim procedeu para conosco.[21] Somente o perdão humilde e sincero, sucedido do completo esquecimento, verdadeiramente nos libertará e nos fará plenamente felizes.

Vaidade: o cegar dos olhos

“Empreendi grandes obras; edifiquei para mim casas; plantei para mim vinhas. Fiz jardins e pomares para mim e nestes plantei árvores frutíferas de toda espécie. Fiz para mim açudes, para regar com eles o bosque em que reverdeciam as árvores. Comprei servos e servas e tive servos nascidos em casa; também possuí bois e ovelhas, mais do que possuíram todos os que antes de mim viveram em Jerusalém. Amontoei também para mim prata e ouro e tesouros de reis e de províncias; provi-me de cantores e cantoras e das delícias dos filhos dos homens: mulheres e mulheres. Engrandeci-me e sobrepujei a todos os que viveram antes de mim em Jerusalém; perseverou também comigo a minha sabedoria. Tudo quanto desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei o coração de alegria alguma, pois eu me alegrava com todas as minhas fadigas, e isso era a recompensa de todas elas. Considerei todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também o trabalho que eu, com fadigas, havia feito; e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol.”   Eclesiastes 2:4-11


Faz alguns anos, assisti à conferência de um grande arquiteto de renome mundial, provavelmente o nosso maior ícone da arquitetura brasileira. Projetou e construiu cidades, edificações, templos, estádios, palácios no mundo todo. A platéia, composta basicamente por futuros arquitetos, não escondia a sua admiração pela sumidade. Foram tantas fotografias e pedidos de autógrafo. Até mesmo contendas para se aproximar do palestrante que, durante uma hora aproximadamente, traçou um panorama de toda a sua trajetória profissional até à velhice produtiva. Ao final daquela explanação, entretanto, o grande arquiteto surpreendeu-nos afirmando algo assim: “Sei que vocês estão aqui pela arquitetura. De fato, a arquitetura é formidável. Mas vocês que estão começando, nunca se esqueçam, arquitetura é importante, mas o mais importante são os amigos, a família, a vida.” Na roda de estudantes, algum tempo depois, a frase final era o objeto de debate. Para a juventude, a morte, a velhice, o fim encontram-se tão distantes que tais afirmações soaram totalmente panfletárias. Em nossos vinte e poucos anos, a finitude ainda figura por demais abstrata. Somos imortais e queremos realizar coisas igualmente eternas. É este fogo e esta pulsão de vida que nos move como tratores em busca de nossas conquistas. Apesar de lindo o pensamento, extremamente simples e poético, parecia consenso entre os ouvintes que se tratava muito mais de uma demagogia do que de um sentimento sincero. Realmente fácil, da altura da riqueza e da notoriedade, dos sonhos e projetos concretizados, terminar com este discurso de banalidades ao fim da vida. Apesar dos argumentos naquela roda, as palavras do arquiteto me intrigavam. Havia algo de estranho na sua voz, uma melancolia, quase uma ansiedade e um desespero em convencer os ouvintes daquelas verdades.

Os historiadores de modo geral atribuem a autoria do livro de Eclesiastes a Salomão, denominado o Pregador no texto. Nestes três mil anos, desde o sábio rei até a atualidade, podemos colecionar confissões de personagens ilustres da história que, ao final de suas vidas, perceberam o quanto muito do que foi feito não teve sentido algum, redundou em somente tempo perdido. Até mesmo algumas figuras emblemáticas e altruístas, que tanto lutaram por causas dignas e alheias, terminam por concluir que a maioria dos sacrifícios não deveriam ter sido empreendidos. Talvez a chave para o mistério destas decepções resuma-se em duas pistas, duas palavras do trecho de Eclesiastes aqui transcrito: “para mim”, repete insistentemente Salomão. Para si construiu palácios, para si empreendeu grandes obras, para si patrocinou as artes, para si existiram as mulheres, para si foram os frutos de sua sabedoria e conhecimento. Tudo fez Salomão somente… para si.

Se antes de cada atitude, de cada palavra, filtrássemos aquelas que não foram movidas pelo egoísmo, pela vaidade ou pela vingança, provavelmente pouca coisa sobraria do que temos feito. Se praticássemos o “exercício da ilha”, nossas escolhas seriam radicalmente diferentes. Imaginemos uma ilha edênica, onde nada falta para nossa subsistência e para onde levaríamos somente aqueles que verdadeiramente nos amam, exclusivamente os que nos conhecem em profundidade, sem máscaras. Pessoas para as quais não temos vergonha alguma de mostrar as nossas fraquezas e falhas. Como seria nossa vida nesta ilha? Quais trabalhos nos dariam prazer sincero, quais atividades de lazer tomariam nosso tempo livre? Quais seriam os lugares freqüentados, esportes praticados, roupas, posturas, casas, carros, desejos? Sem a presença dos inimigos, sem a presença dos “mui amigos” para quem constantemente procuramos provar o nosso valor, provavelmente nos libertaríamos de muitas ambições e vaidades que nos motivam, que condicionam nossos sonhos numa sociedade materialista e superficial. Muito, senão quase tudo, perderia o sentido, porque na verdade, nunca o teve. Confessou um empresário de sucesso, num artigo evangélico, que hoje passava necessidades ganhando o salário que sempre almejou. Perdia o sono com dívidas, sustentando um estilo de vida luxuoso para impressionar pessoas das quais sequer gostava, cuja opinião não merecia qualquer apreço. “Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão, e o vosso suor, naquilo que não satisfaz? Ouvi-Me atentamente, comei o que é bom e vos deleitareis com finos manjares.”[22]

Costuma-se dizer que de um lado se tem a realidade, do outro não se tem absolutamente nada. Quanto maior a ilusão, maior a queda. Grande deve ter sido o desespero do Rei Salomão ao dissiparem as nuvens que cegavam seu entendimento; ao perceber, no final, que tudo aquilo que lhe dava tanta alegria e preenchia o seu coração resumia-se a nada. No hebraico, a tradução do termo vaidade significa literalmente vapor. Vaidade de vaidade, diz o Pregador, tudo é vaidade. Correr atrás do vento, prazeres vazios, fugazes como a própria passagem do homem na terra, erva que hoje está no campo e amanhã murcha sem que nos demos conta. Como o grande arquiteto, o Pregador finaliza o livro de Eclesiastes com uma palavra aos jovens. Salomão os alerta para que se recordem do Senhor ainda na mocidade, antes que venham os maus dias dos quais dirão: neles não tenho prazer. De todas as conclusões que o grande rei obteve a suma é: teme a Deus. Somente nEle nossa breve vida possuirá um válido propósito.

 

Vida cristã: vida liberta, vida com propósito

“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei. E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disse me aproveitará. O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará; Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor.”  I Coríntios 13:1-8,13


Ricos e pobres, ilustres e anônimos, senhores e escravos, instruídos e humildes, fortes e fracos: todos nós compartilharemos o mesmo fim, retornaremos para a mesma terra. É só uma questão de tempo. Mas tudo aquilo que poderia não ter significado algum, quando movidos pela vaidade, pela vingança e por valores equivocados, podem adquirir novo e valoroso sentido se mudamos as motivações que nos impulsionam. Tudo vale a pena se focarmos nas pessoas, na felicidade do outro, no amor ao próximo. Cristo fez com que cada um daqueles que passaram por Sua vida se sentissem tremendamente especiais, porque de fato, eram especiais para Ele. O Senhor Jesus, com Seu sacrifício, salvou toda a humanidade. Mas o nosso Deus é um Deus pessoal. Isto significa que, se fosse necessário fazer tudo novamente por apenas uma única pessoa, somente por você, Ele o faria. Por amor, morreu por mim. Deus é, sobretudo, amor. Se possuirmos uma fração sequer deste amor, todos os nossos momentos, desde os menores às grandes realizações, serão de inestimável proveito. O trabalho, o lazer, os relacionamentos, a vida… há eternidade em cada uma das coisas que fazemos com amor, porque o amor jamais acaba. É como torrentes de águas vivas que vão fluindo de pessoa para pessoa, propagando de geração em geração ao longo de toda a existência humana. Cada vez que nos deixamos inundar por estas águas, cada vez que transbordamos deste rio, verdadeiramente construímos obras eternas. E, se amando, conseguirmos ensinar uma só pessoa a amar também, então seremos mais do que vencedores. Pois somente nEle, no amor de Cristo que excede todo o entendimento, encontraremos a nossa vitória, a nossa eternidade, o nosso propósito de vida.

 

[1] “Filipe encontrou a Natanael e disse-lhe. Achamos Aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiam os profetas: Jesus, O Nazareno, filho de José. Perguntou-lhe Natanael: De Nazaré pode sair alguma coisa boa? Respondeu-lhe Filipe: Vem e vê.”  João 1:45-46

[2] “Antes, porém, de todas estas cousas, lançarão mão de vós e vos perseguirão, entregando-vos às sinagogas e aos cárceres, levando-vos à presença de reis e governadores, por causa do Meu Nome; e isto vos acontecerá para que deis testemunho.”  Lucas 21:12-13

[3] Salmo 115:1

[4] “Eu sou a porta. Se alguém entrar por Mim, será salvo; entrará, e sairá, e achará pastagem. O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; Eu vim para que tenham vida e tenham em abundância.” João 10:9-10

[5] “Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus.”  I Coríntios 1:18

[6] “Vinde a Mim, todos os que estais casados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o Meu jugo e aprendei de Mim, porque Sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o Meu jugo é suave e o Meu fardo é leve.” Mateus 11:28-30

[7] “Mateus 26:52

[8] “Irai-vos e não pequeis; consultai no travesseiro o coração e sossegai. Oferecei sacrifícios de justiça e confiai no Senhor.” Salmos 4:4-5

[9] Salmo 91

[10] Salmo 37:6

[11] Salmo 34:19-20

[12] “Estas cousas vos tenho dito para que tenhais paz em Mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; Eu venci o mundo.” João 16:33

[13] Salmo 124:6-8

[14] “Quando cair o teu inimigo, não te alegres, e não se regozije o teu coração quando ele tropeçar; para que O Senhor não veja isso, e Lhe desagrade, e desvie dele a Sua ira.” Provérbios 24:17-18

[15] João 8:1-11

[16] “Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis lugar ao diabo. (…) Longe de vós, toda amargura, e cólera, e gritaria, e blasfêmias, e bem assim toda malícia. Antes, sede uns com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou.” Efésios 4:26-27,31-32

[17] “não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A Mim me pertence a vingança; Eu é que retribuirei, diz O Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber, porque fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.” Romanos 12:19-21

[18] Compartilham deste pensamento os teólogos da Bíblia de Estudo Vida, nota “É certo orar pedindo vingança?” Pág. 884.

[19]  Isaías 5:20

[20] “A discrição do homem o torna longânimo, e sua glória é perdoar as injúrias.”  Provérbios 19:11

[21] “Então, Pedro, aproximando-se, Lhe perguntou: Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes? Respondeu-lhe Jesus: Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete.”  Mateus 18:21-22

[22] Isaías 55:2

Fonte: http://www.missionariosdocotidiano.org/apresentacao.aspx

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